|
PREGANDO PEÇAS Por: Sérgio Medeiros DUAS “PEÇAS” DE SÉRGIO MEDEIROS PARA SEREM ENCENADAS EM CASA: 1. CASTRO ALVES DO BRASIL Um Espetáculo Gastronômico Castro Alves del Brasil, tú para quién cantaste? Pablo Neruda PRIMEIRO ATO: ANTIGAMENTE CENA I Teatro de uma escola particular.// Pais, crianças.// Calma relativa.// Parte do público se serve de guloseimas. A cortina, rígida e plissada, termina em pontas de sapatos femininos sujos de vinho tinto, mal-equilibrados numa passarela iluminada. CENA II Grãos de pipoca espalhados no piso, ao lado de uma bola gasta. SEGUNDO ATO: HOJE, AMANHÃ OU O FANTASMA E A CANÇÃO CENA I Uma cozinha. Uma cozinheira, um chef . Uma ou outro ou ambos. Vários panos de prato úmidos, jogados em cima do fogão. Uma chaleira brilha: cisne de pescoço negro, corpo no formato de cúpula prateada (ave num lago branco, folhagens brancas pendem sobre as margens). Ao lado, uma pia suada, uma torneira decepada lança o longo pescoço como um troféu. Altas horas de uma noite abafada. Lâmpadas ocultas produzem uma espuma na parede que não escorre – alva, fixa. CENA II Os cozinheiros, na verdade, já desapareceram, não há mais ninguém ali. Atrás de um balcão, ou sentado à mesa, mais além, o público aguarda. Provavelmente são os próprios cozinheiros, sem identidade, fatigados, indiferentes, silenciosos. Essa é a sua canção -- neste exato momento. TERCEIRO ATO: ONTEM, A QUEIMADA CENA I Novamente uma cozinha. A mesma da cena anterior. Manhã de um dia ensolarado. No pátio, grossa coluna úmida, apenas cimentada. Algumas pessoas entram na cozinha, sem muito objetivo, depois saem para o pátio. Procuram uma criança. Alguém abre um jornal. Arrasta-se um móvel – uma poça de urina no assoalho. Alguém (ator/atriz) abre uma das bocas do fogão e se esconde atrás da porta de um armário. Então começa a declamar rapidamente um poema que já arde nas chamas, consumindo-se com incrível velocidade. (As línguas azuis sobem, arredondando-se, e terminam num halo alaranjado, uma fruta transparente – trazida para o café da manhã.) Eis o poema: “...vagar...o vento açoita...moita...listrões...rubro, veloz... espan...inf...os br...n...” (Palavras do poema “A queimada”, de Castro Alves.) CENA II O bojo da chaleira reflete colunas inclinadas, enegrecidas. TERCEIRO ATO: AGORA, A CACHOEIRA CENA I Ainda uma cozinha. A mesma cozinha das cenas anteriores. Noite, luz fraca. A torneira ligada, a água se acumula na pia. Atrás ou ao lado uma embalagem de detergente pela metade, com bolhas fixas nas paredes internas. Alguém (moço, velho, criança) entra e fecha a torneira. Volta-se e, ao fazê-lo, percebe seu reflexo no vidro da porta defronte, reflexo escuro, como carbonizado. CENA II [Desnecessária.] 2. MBOPI Contemplação de um Jardim à Noite And bats with baby faces T. S. Eliot Personagens: Homem & Mulher Trilha sonora: Studies for Piano Player , de Colon Nancarrow Hora: depois do jantar, numa noite de verão ATO I Homem sozinho. Sentado a uma mesa. Diante de grande janela. Embaixo, holofotes fixos varrem a grama escura. Lançam água sanitária que desbota o negror. Um opossum cheira a luz. Parece doente, mas é gordo, tranqüilo. Passeia pelo gramado sua barriga redonda, o rabo pelado bem-estendido para trás. ATO II Uma mulher eleva-se repentinamente do jardim e paira diante da janela aberta. O homem estremece. Agora está sentado numa poltrona. A mulher joga para dentro do quarto, ou da biblioteca, um mbopi negro. ATO III A janela é também uma porta envidraçada aberta. A mulher, do lado de fora, flutua como um balão e examina o céu, dando as costas para o homem que finalmente se levantou da poltrona. De pé, no centro da sala, com um livro em cada mão, o homem enxota o mbopi , cada vez que este se aproxima perigosamente do seu rosto. ATO IV A mulher desaparece. No lugar do homem, vê-se um gato branco, deitado na poltrona que ele antes ocupara. O gato está exangue, mal respira. Sonha. O mbopi lhe sugou o sangue.
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||