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TRADUÇÃO INÉDITA DE O SABÃO Por: Adalberto Müller UM PEDAÇO D" O SABÃO de Francis Ponge traduzido por Adalberto Müller (extraído de: MÜLLER,A. Música e mímesis na obra de Francis Ponge . Tese de Doutorado. USP-FFLCH, abr. 2002.) O SABÃO SAINETE(1) OU MOMO(2) (1). Contrariamente ao que se poderia acreditar, sainete é, muito menos que uma pequena cena, um pequeno pedaço de gordura, pedaço delicado, ao mesmo tempo delicado e nutritivo, e mesmo tonificante. A origem da palavra francesa é de sain , gordura, que é nosso sain em saindoux (banha), e, por conseguinte, em espanhol, sainete : um interlúdio, e, em francês, uma pequena peça burlesca do teatro espanhol (2).Um momo é uma mascarada, uma espécie de dança executada por máscaras, por conseguinte, um desafio levado por máscaras. O radical é o mesmo de momice. Dever-se-ia nomear assim, por extensão, toda obra de arte que comporta sua própria caricatura, ou na qual o autor ridiculariza seu próprio meio de expressão. A Valsa da Ravel é momo. Esse gênero é particular às épocas em que a retórica está perdida, busca a si própria. Personagens: SEGUNDO LIMPA-CHAMINÉS PEQUENO LIMPA-CHAMINÉS DATILÓGRAFA O LEITOR ABSOLUTO O ABADE JOÃO BATISTA SIMPLÓRIO PRIMEIRO FILÓSOFO SEGUNDO FILÓSOFO O POETA Quando a cortina se levanta, os limpa-chaminés (dois homens e um rapazola)saem da casa. Eles fazem o gesto de sacudir a sujeira de carvão que os cobre, passam as mãos na cara, com ar fatigado. Mas parecem, por outro lado, contentes do trabalho que acabam de realizar. Levantamos olhos para os tetos, as chaminés. Satisfeitos de o terem terminado. O POETA Para o asseio intelectual; um pedacinho de sabão?... PRIMEIRO LIMPA-CHAMINÉS Bem manuseado basta... O jovem limpa-chaminés já está sob a bomba, que ele faz funcionar) PRIMEIRO FILÓSOFO , apontando para o menino Onde torrentes de água pura... SEGUNDO LIMPA-CHAMINÉS , mandando embora o menino Não levariam nada... O LEITOR ABSOLUTO , inclinado sobre a fonte Nem o silêncio... SEGUNDO FILÓSOFO (O Abade João Batista Simplório parece tomado de uma santa iluminação. Ele aponta para o céu com um dedo profético, tira de dentro de sua batina uma estatueta de São Suplício, pousa-a sobre a mesa, saúda-a, faz muitos sinais da cruz e vai ajoelhar-se sob a bomba d"água, com as mãos juntas. Nenhuma água cai da bomba) (O sol reluz.) PRIMEIRO LIMPA-CHAMINÉS De nada serve viver em pompa d"água... (Palavras incompreensíveis do Abade.) SEGUNDO LIMPA-CHAMINÉS Só para soluçar... (O Abade levanta novamente a cabeça, percebe que nenhuma água caiu, mas não perdeu em nada sua segurança: dirige-se com um passo quase sonambúlico à fonte, onde se afunda até a cintura, com os braços cruzados sobre o peito, os olhos em direção ao céu, como no Batismo do Jordão. Ele conservará essa atitude até o final do ato.) PRIMEIRO FILÓSOFO E o triunfo do absurdo, nessa espécie, não consiste... SEGUNDO FILÓSOFO Em se cingir... PRIMEIRO LIMPA-CHAMINÉS De braços cruzados! SEGUNDO FILÓSOFO De uma água que foi para o Mar Morto... SEGUNDO LIMPA-CHAMINÉS Bem melhor, creia-me, na mais infinita bacia... PRIMEIRO FILÓSOFO, ao Poeta Mas aí está ela, justamente, sob a torneira, transbordando de impaciência... SEGUNDO FILÓSOFO A soltar a língua seca do sabão. O LEITOR ABSOLUTO, bruscamente, aos limpa-chaminés , mostrando a estatueta sobre a mesa de ferro: Levem este Deus! Tragam mesa e bacia! (Os limpa-chaminés , colocam a mesa no proscênio , retiram a estatueta, substituem-na por uma bacia cheia de água e o pires contendo um pedaço de sabão.) (Ao Poeta): Dê a palavra ao sabão! O Poeta avança, pega um pedaço de sabão e se prepara para declamar, lavando as mãos. Os limpa-chaminés deixaram a frente do palco, aproximaram-se da bomba d"água e começaram a despir suas vestes. Durante toda a declamação, eles levarão os torsos nus sob a bomba, com um grosso pedaço de sabão bastante espumante, e levarão o menino também. A datilógrafa retira a capa de sua máquina, e em quanto o Poeta vai falar, ela retira de uma vez seu vestido e fica nua(ou de maiô). O Leitor Absoluto deixa a balaustrada da fonte e vai situar-se atrás da datilógrafa, para acompanhar a declaração nas folhas que ela irá preencher de negro. Os filósofos sentaram-se ou encostaram-se, e escutaram-se, e escutam. O Abade continuará imóvel na fonte, em sua atitude de prece expectativa... (FIM DO PRELÚDIO) Durante a declamação que seguirá, escutar-se-á uma música de cena, em surdina, bem pouco brilhante, antes severa, num contraponto rigoroso, inspirada no ruído das máquinas de escrever. Na verdade, ela funcionará constantemente. Às vezes se escutará também algo como o passar das folhas de um livro... Um violento projetor oblíquo, iluminando de baixo para cima, e vindo da platéia, projetará a sombra do rolo da máquina de escrever numa tela que substituirá o tecido do fundo. Nessa tela, que se parecerá com a folha colocada no rolo da máquina de escrever, subirá, em cinematografia, o texto de poema, à medida que vai sendo declamada. Aí então começará a declamação de poema propriamente dito, do qual lhes darei uma idéia daqui há pouco, e no final do qual ocorrerá a pequena cena final a seguir: CODA em DIÁLOGO O POETA, acabando de declamar ... Não acabaríamos com o sabão. É necessário no entanto devolvo, ao seu ovalado austero, à sua paciência seca e ao seu poder de servir novamente. (Ele pousa o pedaço de sabão no pires.) OS DOIS FILÓSOFOS, EM CORO Se ele quisesse demonstrar que a pureza não se obtém por meio do silêncio, mas por meio de não importa qual exercício da palavra (em certas condições), seguido de uma catástrofe súbita de água pura não teria discorrido de outra forma. O ABADE J. B. SIMPLÓRIO (Ainda imerso até a cintura na fonte, no momento em que os filósofos pronunciam a palavra ‘discorrido", diz em coro com eles, no mesmo tom:) Vaticinado... (Depois faz o sinal da cruz, mas sem dúvida a água do Jordão está fria, pois, tocando a testa com ela, fica-lhe uma mancha negra.) (Estão limpos e brilhantes, brancos, radiosos, e pronunciam, no mesmo momento que os Filósofos dizem ‘discorrido" e o Abade, ‘vaticinado":) (Antes que a cortina comece a cair, aproxima-se do Leitor Absoluto, o qual, sempre atrás da datilógrafa, arrancou as folhas da máquina e os trouxe diante dos seus olhos, – pega-o pelo braço e o leva para a saída dizendo:) CORTINA Esse espetáculo nunca foi encenado. Preparei-o, como já disse, somente para mim mesmo. Mas ao mesmo tempo sentia por causa dele uma espécie de remorso, de peso na consciência. Dizia a mim mesmo que ele não era digno de um escritor do meu gênero , de se valer, para fazer-se compreender, de tais facilidades, de tais expedientes. E também que no fim das contas um texto deveria ser suficiente por si próprio, não tendo a necessidade de ser representado. Escrevi então uma espécie de pequena prosa resumindo o poema inteiro, de cabo a rabo, de modo a construir, enfim, não um espetáculo, mas um livro. Aqui está esse resumo, que intitulei de TEMA DO SABÃO, e cuja redação é de 8 de julho de 1944. TEMA DO SABÃO ...Aqui está, caro leitor, para o seu asseio intelectual, aqui está um pedacinho de sabão. Bem manuseado, basta. Tomemos nas mãos essa pedra mágica. Há algo de adorável na personalidade, o caráter do sabão; de inimitável em seu comportamento. Primeiro uma reserva, uma constância, uma paciência sobre seu pires, tão perfeitas quanto as do seixo. Mas ao mesmo tempo menos rugosidade, menos secura. Algo, é certo, de tenaz, compacto e que mantém as rédeas curtas, mas de ameno também, de afável, polido macio, agradável nas mãos. E perfumado (embora não sui generis ). Mais vulgar talvez, mas em compensação mais sociável. Isso se deve ao óleo que o compõe e que faz o substrato de suas qualidades. Nenhuma casca, nem mesmo uma epiderme: porque nenhuma pretensão ao ser autônomo. Enquanto o seixo é mais que misantropo; parece ignorar totalmente o homem, – o sabão é feito para o homem, ele não o esquece; não esquece de modo algum seu dever. É uma pedra que não existia na natureza. Desliza por ela com uma facilidade, uma graça, uma bonomia, uma sociabilidade perfeitas. * Observando-lo no meio aquático. Aí ele mostra logo uma espécie de agitação pudica. Ele circula, foge, faz mil reverências, se veste de véus e finalmente prefere fundir, entregar a alma e entregar o corpo, a deixar-se enrolar, rolar unilateralmente pelas águas. Diremos que ali ele leva uma existência dissoluta? Sem dúvida... Mas isso também pode ser entendido como uma espécie de dignidade particular. As águas ficam, aliás, bastante impressionadas com ele, perturbadas, muito seriamente punidas. Elas não se livram facilmente dos traços do crime. Não chegam a se livrar dele senão graças a um afluxo considerável de reforços, senão apelando para a quantidade. Nesse momento, tiremos o sabão da água e consideremos cada um dos dois adversários. Ele bastante diminuído, adelgaçado, mas sem ter perdido suas qualidades. Ela, um enorme volume perturbado, desfigurada. Quem é o vencedor? Mas prosseguindo iremos atingir a razão de ser, a destinação (ou destino) do sabão. Que o trio se constitua. Que intervenha um homem. Um homem de mãos sujas. Um homem que tem necessidade do sabão. Que reconheça suas qualidades, propriedades, suscetibilidades, defeitos, e saiba usá-los, servir-se deles, adula-los, valoriza-los. Então assiste-se a um enorme impulso de generosidade, de entusiasmo, de jubilação do nosso objeto no dom de si. Ele revela enfim seu gênio. Sua volubilidade. Chegou a sua hora e a sua ventura. . Ele se dá inteiramente, jubila, balbucia, etc. Suas carícias, abraços, manifestações, não parecem acaba nunca. Pode ocorrer que se abuse disso. Perfeição estética. Bolhas... No entanto, é preciso acabar, pôr um termo(e antes um freio) a esses impulsos. Um parágrafo de água simples bastará. E se perceberá então que o exercício do sabão o terá deixado mais limpo, mais puro e mais perfumado do que você estava antes. Que ele o terá mudado para melhor, requalificado . Quanto a ele, volta ao seu oval austero, ao mesmo tempo austero e afável. Retrai-se e espera ser novamente mobilizado. Retoma sua atitude modesta, seu ar taciturno. Retorna à sua paciência, à sua serenidade. Passemos rapidamente pelos quatro ou cinco semestres que se seguiram: o inverno de 1944, o ano inteiro de 1945, o primeiro semestre de 1946, – quando tive muitas outras coisas para fazer e não me ocupava mais do sabão. Mas durante o verão de 1946, em que voltamos a Coligny para as férias, tive o prazer de trabalhar nele novamente. Notar-se-á que as circunstâncias haviam então mudado – e pára mim também, pessoalmente para mim. Muitos ensaios sobre minha obra, em seguida ao de Sartre, haviam sido publicados. E eu estava, aliás, embora ainda sinceramente comunista, a ponto de deixar o Partido que tem esse nome, cujas instruções, nas matérias da minha competência, não me comoviam mais. Tudo isso se sente nos fragmentos que se seguem: Coligny , 17 a 22 de julho de 1946. “ FRANCIS PONGE, ou o homem feliz”, escutei dizer de mim. Certamente: muito feliz com tudo que me acontece, e particularmente por ter tido (o que ocorreu assim mesmo) o tempo de observar de modo meio atento um pedacinho de sabão. Se você dispõe de uns minutos e se lhe agrada refazer o caminho comigo... Mas vejamos: comecemos pelo começo. E esfreguemos, para começar e em seguida atiremos no lixo todo rascunho de papel marcado com o mau gosto ordinário das embalagens do objeto. Tomemo-lo inteiramente nu. Se ocorresse (como acontece), ainda que fosse a propósito das coisas mais simples e de reputação menos conseqüente , até mesmo a propósito das mais derrisórias, que o jogo de meu espírito se exercitasse mais favoravelmente, gostaria que não me censurassem. Claro, longe de me vangloriar disso, confesso minha culpa e coloco-me de cara bem abaixo dos meus confrades que tratam de assuntos graves e emocionantes. Se me ocorre perder por instantes a cabeça a ponto de começar a acreditar em meus bondosos críticos, que elevam às nuvens, se não atribuem, ponho logo os pés no chão, acreditem. Digo a mim, à guisa do consolo, que muitos artistas franceses, e não os menores, puderam encontrar-se em semelhante estado. La Fontaine e Rameau estiveram entre esses. E Chardin , e agora Braque . Mas talvez alguma experiência (renovada repetidas vezes) me levaria, se sentisse a necessidade de uma justificação mais pretensiosa, a supor que uma tal aplicação do espírito seja, se não recomendável, pelo menos pareça natural numa época como esta em que a sorte nos faz viver. Será preciso falar dos acontecimentos ou dos espetáculos pelo menos desagradáveis que fomos obrigados a suportar desde que estamos no mundo. Eu teria escrúpulos. Embora pense que em nenhuma época pode-se encontra-los mais terríveis, mais espantosos para a sensibilidade. ..................... ............................................(desenvolver um pouco) Mas talvez, considerando bem, tudo isso não é mais grave que uma simples doença, – ou que o sentimento, simplesmente, da condição humana. Apenas mais espetacular, talvez! Não decidirei isso. Não é de hoje que a sociedade, e cada indivíduo, se mostram às vezes como que enlouquecidos, jogados no extravio e no desespero. E já se notou que apenas o domínio de si, apenas o sangue frio, apenas a paciência e a equanimidade não era suficiente para levantar os ânimos e reconfortar as almas. É que ao mesmo tempo, nesse tempo de agora, os sentimentos da responsabilidade e da culpabilidade humanas se encontram – para bem ou para mal – bastante desenvolvidos nos espíritos. E, para bem ou para mal, acho isso bastante admirável e patético. Daí um desespero moral, um remorso e uma resolução (seguidos de desilusões, etc.) igualmente insuportáveis. Tanto que as lições dos sábios da antigüidade pareceram insuficientes e propriamente falando inaplicáveis à mentalidade moderna. Como um homem perturbado por tais sentimentos poderia contentar-se com os conselhos de Sócrates, de Aristóteles, de Montaigne ou Pascal, de Voltaire ou de Vauvenargues ? Sei que muitos espíritos aí buscam refúgio. Temo que tenha sido um detrimento de uma certa integridade. No que tange a mim, não arriscarei aconselhar aos jovens o voltar-se para si próprios e à busca da tranqüilidade como o único bem desejável, etc. Teria realmente escrúpulos de fazê-lo, principalmente porque penso poder ser lido por pessoas de uma classe miserável, sobre a qual penso que o seu dever é o de elevar-se primeiro, com a força dos punhos e da coragem, a uma situação material melhor. E penso que essas pessoas e que essas classes, tendo encontrado recentemente uma doutrina que as exalte em um partido que as conduza pelos caminhos da vitória, enganar-se-iam bastante em desviar de seu caminho em proveito de não sei quais antigas teorias de resignação e de estoicismo, que acredito favorecerem aos seus exploradores. E quanto a esses exploradores, como poderia um artista estimá-los, quando os vê, insensíveis ao bem e às qualidades de gosto, de delicadeza e de espírito, piores que seus predecessores (aristocratas) na exploração humana? Como não desejar sua derrota e sua substituição por uma classe miserável que possui provavelmente em si os recursos de fervor e de pureza próprios à criação do belo e do delicado, os quais são o soberano bem que desejo aos homens. Desse modo, não desviarei ninguém do dever de ação e de revolta. Ao contrário, quando a situação não é desesperadora (e ela não cessa por assim dizer de o ser ), considerando que cada homem (artista ou não) deve delegar uma parte ao menos de sua atividade à ação cívica, tomarei o parido do lado a que me referi. De qualquer modo, não seria honesto de minha parte (e aliás de nada serviria, ainda que conseguisse) renunciar por nada neste mundo os valores que uma formação, burguesa sem dúvida, mas enfim humana também, me levou a considerar de uma vez por todas os mais dignos de serem definidos (a tal ponto que, se desejo a revolução – ou enfim esse movimento histórico que levará ao poder a classe atualmente – é na esperança de que o maior numero de pessoas – e em última estância todos os homens – estejam um dia em condições de poder almejar a esses valores, entronizá-los e fruí-los). Quais são esses valores? Acabo de dizê-los: o belo e o delicado. Daí decorrerão duas conseqüências para minha conduta: Primeiramente, no interior desse partido único que havia adotado, agirei – reconhecendo bem, como o disse mais acima, que ele está apto a levar meus amigos e eu aos caminhos da vitória – e que um partido de pessoas rudes e miseráveis não saberia adotar maneiras que não lhes convém – agirei então no sentido da conservação (ainda que apartado ou em surdina) desses valores nobres e delicados que coloco no lugar mais alto e que designo como finalidade última. Persuadido que estou de que não se poderiam pisotear os mesmos valores pelos quais enfim lutamos. Outras considerações, aliás, militam em favor dessa tese. Sobretudo a consideração das características psicológicas que são reconhecidas unanimemente no povo francês: etc... a ser desenvolvido : o gosto pela verdade, a insolência para com as pessoas, realismo e coragem espiritual: Rabelais, Boileau , Montaigne, Molière , Voltaire, etc.). * Já que, para começar, é necessário sempre romper alguma coisa, que seja o silêncio, rompamos então, esfreguemos e joguemos ao lixo toda nota ou rascunho de papel marcado com o mau gosto ordinário das embalagens do objeto... tomemo-lo inteiramente nu. E a princípio, uma vez que ele se apresenta novo em duas formas principais – cubo (ou paralelepípedo), ou forma ovóide –, notemos, a propósito dessas duas formas, que uma tende para outra, sendo que a primeira não se conserva facilmente (embora seja mais conveniente para a embalagem, a acomodação e a expedição em caixotes, caixas e vagões) e que o menor uso a faz logo, insensivelmente, tender para a segunda. Essa, ao contrário, uma vez obtida, conserva-se, perfaz-se pouco a pouco, perpetua, graças à própria erosão. É aliás a forma predestinada de nosso objeto (essa forma ovóide): porque ela tem virtudes de fuga, de sucesso , quero dizer de saída para fora das mãos, quando acabou de ser útil. Afora o comentário de Ponge ao verbete, é preciso considerar que a palavra sainete em português deriva do espanhol, também significando (No Aurélio ):1. Isca que se dava aos falcões. 2. (...) Coisa agradável (...) 3. Gosto especial, gosto, sabor (...). No sentido teatral, equivale pelo sentido mencionado pelo autor. O Moraes de1813 desconhece essa acepção teatral, mas é mais claro quanto a primeira acepção dada por Ponge : “o pedacinho de tutano, ou miolos, que os falcoeiros, ou caçadores de Volateria (sic) dão ao falcão, ou passará para os terem mansos, e amigos. Noutra acepção, é “Presente, mimo com que se ameiga a gente esquiva”. “ Momon ”. Momo segundo o Aurélio é: 1)pequena farsa popular/zombaria; 2) o ator que representa essa farsa; 3) figura inspirada em momo (2)e que personifica o carnaval. “ Jean-Baptiste Gribouille ”: “ Jean-Baptiste ”, alusão a São João Batista, a quem já alude a passagem sobre o homem que se lava nas águas do rio Jordão. O substantivo “ gribouille ” provém do nome de um personagem ingênuo e estúpido, e segundo o Robert é “ personne naïve et mal avisée qui se jette stupidement dans dês ennuis , les auxqu " elle même voulait éviter ” [Cf. o verbo “ gribuiller ”, fazer garatujas]. É digno de nota, nesse contexto, o provérbio “ Gribouille qui se jette dans I" eau crainte de pluie ”(rã que salta na água temendo a chuva). Genre aí se traduziria normalmente por tipo, classe, feitio, estilo, natureza, ou o que o valha. Mas essa acepção de “gênero”, menos usual, também existe em nossa língua numa expressão como essa (“de meu gênero”). É importante mantê-la exatamente pela questão dos gêneros na obra de Ponge . Não é a toa que o próprio escritor sublima a expressão. No sentido de dádiva, oferta, entrega de si. “Heure” e “heur” (de “augurium”, presságio), bonne fortune. O sabão (o poeta ) uma vez que passou pela “provada expressão” (ver L"ORANGE), volta a ser o que era, um homem e nada mais (taciturno, paciente, sereno). Em 44 Ponge deixa Coligny e volta a Paris, uma vez que os aliados expulsam os alemães. Nesse mesmo ano, Ponge está bastante ocupado com a direção das páginas de literatura da revista comunista Action . Ainda nesse ano Sartre publica “O homem e as coisas”, em Poesie 44. Em 1945 Ponge se muda para a rua Lhomond ; publica Notas primeiras sobre o homem no 1º número de Lês Temps Modernes ; morte de seu amigo (e leitor) Bernard Groethuysen (fonte : Magazine Littéraire , n. 260) . Uma frase semelhante é proferida em Proêmes (PPC, 116). A sorte (o fatum epicurista ), e não Deus, ou a Història . “le repliement de chacun sur soi” parece remeter ao gnothi seautón de Sócrates. Já a tranqüilidade , a algumas idéias estóicas. Observe-se que aqui (“exalte”, “ conduise ”) Ponge prefere o subjuntivo(tempo da hipótese ) ao indicativo futuro, tão comum aos diversos manifestos comunistas. “ empreint ” correlaciona-se com “ imprimer ” (imprimir) e com “ empreinte ”(marca); uma impressão é uma “ empreinte ” sobre o papel. Etimologicamente sucesso (‘ succès ”) deriva do latim “ succedo , - ere ”: por-se debaixo de alguma coisa; levar-se; seguir-se.
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