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Florianópolis, 29 de Abril de 2008 UM FRAGMENTO DE FINNEGANS WAKE DE JAMES JOYCE Por: Afonso Teixeira Filho Renatos Avelar (Finnegans Wake) (Páginas iniciais do romance) fluminente, eventando o riocurso adante, do desrumo da fraga até à orla da angra, reavida por um vicomodado recirculoso, devoluta- se para a colina de Howth, o Castelo e o Entorno. Seo Tristão, violamor, de marilanda alenavara, inda se não havia arrevultado a passo ancora da Armórica do Norte, no magristmo da Eiropa Menor, aonde isolou-se forâneo ao quersoneso afuleimar-se em penoso prélio: nem tão sóia as fragas d‘alta serra despenhar pelo regato Oconina amealhando-se ao gargalho do concelho laurenciano ao passo que dublicavam a gorjeta abeternamente: nem a chamejada voz a taufolegar mexe mexe a crendospadre espetrufara inda não, embora evanesceu assim que o embuste não baldou discordeirar um velho isaque, suave cego: inda não, embora esteleja sinfeira a vanidade, as rútilas sestrelas lirigavam com o janota doizum. Depois de levedar um barril do velho malte do pai, Joanim ou Jocem fermentaram-no no arquilume e no cabo rórido para que o regialto aparecesse anelhures no renho d‘áqua. O derrumbe (itukóvitiohochjetlhinganwadichjeqavbo- tlhtaghjepitlhwadichqunchenmohterajechalñanderuetewapto-kwazawre) do mural estrito outrora esparramou-se em velhas trovas do berço à tumba por toda a menestréria crístina. A enorme queda do muro acarretou nota mirim aluzindo à cadência de Avelar galego firme que na cupinlheira se acostou galevando incontinenti a murada pra esticar as canelheiras: e o prélio barral delas aponta ao nó do parque onde arâncias deitam-se a putrefar na relva em que o dublinás sobre a lívida aliviou-se. Renatos, grão-mestre obreiro, tartamano de Alvanel, que mexia a massa na areia, morava na mais ampla via soidisante numa lústica longedícula aos messianjos semota suso juízos josuéticos numerar-nos ou Helvítico, que do pecado deu ter o nome (outro dia consternado, jogou a cabeça com tudo na bacia para augurar o fático futuro, mas antes que ele a retirasse de lá com suifciente celeridade, devido ao podor mosasco, a própria água seviparou-se e todos os guinerosos convivas rumaram exsuldados só para mostrar que judeito torajoso ele era!) e durante anos já venidos, com seu cocho e cimento, esse homem construiu edifícios na Aldeia Alterna, edefecado ensina destercas supra a falda o agraço que escorrio ruanguerruando pela flúvia ourela. Esposou Analice, pícola sirigaita e apavorou a linda e pequena criatuba. Cingiu-a pelos laços cenos de brancas flores fraleditas. Semprora balbo, mitreu a testa, com diva trolha pega e a bata ebúrnea com que habitacularmente sementava, como Harum Criaderico Egberso caligulou por multiplicabos a altituda e a maltituda até vervir à puraluz do licor, onde a gema nasceu, a testova redonda, sina doutrora de levantar-se em camisa malsão acima (garantiago!), uma aranha-céu rendeira eifelgindo da mais entorrível cabeçoite, eiginando a troco Foi dele a primásia de despor as armas e ter nome. Chamou-se Vasílio Beblaievo Adamastor. Levava um penhacho em sua veneráldica em verte com turvantes ancilárias, argentinas; um cabralho pursuivante, hórrido, córnico. Seu escuto faixado por frecheiros tesos no lado primeiro e hélio na segunda. Cachaça é pro mixanga que mexe na enxada. Orrorrô, Seo Rei, logo serás Reinatos. Zegunda comédia zedo e o sor tá novinho em folha! E vinagradecer o tropeço de dormingo! Arrarrá, Seo Finatos, desse jeito o sior volta a refinar. Que espécie de agentil provocou naquele tragódio dia dos quintos esse negócio de pecado municipal? Nossa caabana inda rola como otestemunha do trovão de nosso fedor, mas ouvimos também por meio de sucessivas eras fatos que se sabá como coreis de descalificadas que deveriam preteger a pedralva persempre expulsa do céu. Fazei com que fiquemos ontes no caminho da justeza, ó Protetor, na hora que nos levantamos, que palitamos os dentes, que nos ajoelhamos ao pé do catre e ao cair da noite e ao apagar das estrelas! É melhor um nabir que me carregue do que um ausanto que me derrube. De ostra maneira taríamos como o morro em médio a boca do maregito. Colherva, a papiroca, é quem decide. Então saberemos se sexta-feira vou em festa. Ela tem como dom medrar e o de alcançar para seus caros aljudantes os sítios e os sonhos. Olha! Olha! Talvez seja um tijolo mal cozido, dizem uns, ou bode ter sido por causa de uma quoda de sua promessa trazeira, como viram outros. (Deve perfazer agora mil e uma estórias conhecidas e parecidas.) Tanto duvidara que mala abelcanhava aservinhas que abraçara (que valha lá velhas vias de pavimentos, róis ruídos, carnacos estongeantes, túmultus tranvias, fargobólios, autoquinotões, hipomóveis, urbondes, viravórios, megafumos, circundos e castros e sinameias e aeropagodes e o ladrisco e o arconte e o pilar e o esgoto e o mequelemburque e o empuçado e a maranha e o merlão depressa e sua proa em proantes tetribunas, arruacentral e sua Vêla? Devera eu ver! Macul, Macul, aimè, per què tu moríres? p.6 SOB O TÍTULO RENATOS AVELAR, AFONSO TEIXEIRA FILHO TRADUZ NA ÍNTEGRA O PRIMEIRO CAPÍTULO DE FINNEGANS WAKE. Por Dirce Waltrick do Amarante A respeito do título Renatos Avelar, este anuncia, citando Jean François Lyotard, uma “leitura de infância”. Entendendo-se infância como pensamento, como uma experiência nova com a linguagem, como uma tentativa de nominar “conceitos vazios”, e não apenas como um simples fato isolado num lugar cronológico, ou algo como uma idade ou um estado psicossomático, independente da linguagem, como também nos fala o filósofo italiano Giorgio Agamben. Agamben afirma, aliás, que “quem acredita num destino específico não pode, verdadeiramente, falar”. A tradução de Afonso desconfia desse destino específico, nela o tradutor se posiciona diante do romance de Joyce. Portanto, na tradução vemos o leitor crítico com olhar infantil. A opção por Renatos Avelar, por exemplo, desvincula, de certa forma, o romance de referências anteriores. Sabemos, pela crítica e o próprio Joyce, que Finnegans Wake deve seu título e, em parte, seu tema (o homem que ressuscita) e sua motivação estrutural (narrativa circular, uso de “refrão”, ou seja, leitmotiv), a uma balada popular conhecida como “Finnegan’s Wake” (escrita com apóstrofo, o qual foi eliminado por Joyce, ao usar a mesma expressão para nomear seu romance). O título do romance foi tão importante para Joyce que ele o guardou em segredo durante anos, já que o escritor acreditava que ele poderia revelar muito de seu novo livro. Os tradutores preservaram de algum modo a ressonância entre o título original e a tradução. Em português, conhecemos o romance pelo título Finnícios Riovém, que sonoramente mantém-se fiel ao título da balada, traduzindo não só os vocábulos do original para o nosso idioma, como também parte da temática (rio, fim, início) e dos recursos estilísticos (a mescla de línguas, as palavras-valise) da narrativa joyceana. Lyotard afirma que “alguns milênios depois ainda somos os filhos da Odisséia. A palavra tem que bastar”. Ao se referir ao título de outro romance de Joyce, Ulisses, o filósofo francês diz: “Joyce intitula um livro Ulisses, estamos em Ítaca, nosso pai regressou”. A leitura que Lyortard faz de Ulisses “renega”, no entanto, esse pai. Ousaria dizer que a tradução de Afonso tem muito em comum com a leitura do filósofo francês, uma vez que, ao intitular o livro Renatos Avelar, ele também duvida da palavra e “renega o pai”. Mas Renatos Avelar não deixa de dialogar com Finnegans Wake: nessa tradução temos o renascimento, a morte, porém é na diferença que a tradução se destaca, é na possibilidade de uma nova leitura, de novas leituras que ela se impõe enquanto literatura (aquela que cria leitores e leituras). Enfim, a tradução de Afonso Teixeira Filho contém uma análise do livro, que se funda perceptivelmente “num pensamento renovadamente crítico”. É uma tradução cuja musicalidade flui como um rio, que convence enquanto tradução e crítica literária. SOBRE A SUA VERSÃO DE JOYCE, AFONSO TEIXEIRA FILHO EXPLICA: “Não se pretendia realizar uma tradução que dessa conta apenas dos jogos verbais e da transferência de sentido de um código lingüístico para outro. Pretendeu-se resolver dois problemas que pareciam mais cruciais: manter a musicalidade do texto e recompô-lo em português, obedecendo regras, próprias desta língua, de composição de palavras e estruturação de frases. Para dar conta dos muitos trocadilhos do original, por exemplo, recorreu-se ao uso de palavras arcaicas ou de freqüência rara quando necessário; ou então, formou-se o trocadilho permutando-se termos com línguas mais sintéticas e de vocábulos pequenos. Exemplificando: a seqüência original “doublin their mumper all the time” contém um trocadilho entre Dublin, capital da Irlanda, e double, “duplicar”; mumper é um outro trocadilho, formado por sua vez de mumper, gíria para “pedinte” e number; dessa forma, a seqüência teria um primeiro sentido de “duplicando o número deles o tempo todo” e um sentido derivado, que seria mais ou menos o de que “o número de pedintes se multiplicava por Dublim o tempo todo”. No entanto, o termo mumper também foi analisado como uma combinação de mom (mamãe, em inglês) e père (pai em francês). Daí surge um problema que redunda em todo o livro: como todos esses trocadilhos na mesma frase? A seqüência acabou ficando, na tradução, “dublicavam a gorjeta abeternamente”, em que temos o primeiro trocadilho facilmente resolvido (Dublim e duplicar); mas, no segundo, no trocadilho entre “número” e “pedintes”, optou-se por fazê-lo entre “corja”, “sarjeta” e “gorjeta” (que é o resultado do que se pede: um dinheiro para molhar a gorja ou garganta, ou seja, uma bebida); mas o trocadilho foi resolvido apenas em parte: onde estão os termos “pai” e “mãe” que aparecem em mumper? Foram deslocados para “abeternamente”, usado para traduzir all the time. A expressão latina ab aeterno tem o sentido de eternidade; foi aportuguesada aqui em “abeternamente”, em que temos “ab” que em hebraico significa “pai” e “ame”, que nessa mesma língua significa “mãe”. Usou-se portanto termos curtos de línguas antigas para que o trocadilho não perdesse aquilo que o caracteriza que é a síntese.”
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