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Florianópolis, 23 de Setembro de 2007

UM CONTO GÓTICO DE IGINIO UGO TARCHETTI
Por: Maurício Santana Dias

Iginio Ugo Tarchetti

Iginio Ugo Tarchetti nasceu em San Salvatore Monferrato, na província de Alessandria, Piemonte (Itália), em 1841. Iniciou carreira militar em 1859 e a abandonou em 1865, após ter escrito panfletos contra a organização militar e qualquer instituição que se baseasse na autoridade. Tornou-se rapidamente um dos expoentes mais típicos da Scapigliatura de Milão, colaborando em diversos jornais da época, como Il Gazzettino Rosa e Il Pungolo. Em seu projeto de renovação da narrativa e da poesia italianas, bebeu com entusiasmo em fontes estrangeiras, sobretudo em Edgar Allan Poe, E.T.A. Hoffmann e Theophile Gautier. É autor do romance Fosca, que inspirou um filme de Ettore Scola (Passione d`amore) e um musical da Broadway (Passion). Morreu de tifo em Milão, muito jovem, em 1869. 

 

HISTÓRIA DE UMA PERNA

 

Tradução, apresentação e notas 
Maurício Santana Dias


São Paulo
2007

 

UM OSSO DE MORTO

 

Deixo à consideração de quem me lê o fato inexplicável que estou para contar.

Em 1855, residindo em Pavia, dediquei-me ao estudo de desenho numa escola particular e, após alguns meses na cidade, estreitei relações com um certo Federico M., professor de patologia e de clínica na universidade local, morto de uma apoplexia fulminante poucos meses depois de o ter conhecido. Era homem apaixonadíssimo pelas ciências e pela sua em particular – tinha virtudes e dotes de uma inteligência rara –, se bem que, como todos os anatomistas e clínicos em geral, era profunda e incuravelmente cético – era-o por convicção, e eu nunca pude convencê-lo de minhas crenças, embora me empenhasse nas discussões apaixonadas e calorosas que tínhamos todo dia a este respeito. Não obstante – e agrada-me fazer esta justiça à sua memória – ele se mostrara sempre tolerante com as convicções que não eram as suas; e eu e quantos o conhecemos conservamos dele a mais cara lembrança. Poucos dias antes de sua morte, ele me havia aconselhado assistir às suas aulas de anatomia, alegando que eu extrairia não poucos conhecimentos proveitosos para minha arte do desenho: concordei apesar da repulsa; e, levado pela vaidade de parecer-lhe menos medroso do que era, pedi-lhe alguns ossos humanos, que ele me deu, e os coloquei sobre a lareira de meu quarto. Com sua morte, parei de freqüentar o curso de anatomia e mais tarde também desisti do estudo de desenho. Assim mesmo, conservei ainda por muitos anos aqueles ossos, pois o hábito de vê-los os tornara quase indiferentes a mim, e não faz senão poucos meses que, tomado por súbito medo, resolvi sepultá-los, retendo comigo apenas uma simples rótula de joelho. Este ossículo esférico e liso, que por sua forma e pequenez eu destinara, desde o primeiro instante, a cumprir o ofício de peso de papel, sendo algo que não me suscitava nenhuma idéia assustadora, encontrava-se havia onze anos sobre minha mesa, quando dele fui desapossado do modo inexplicável que estou para contar.

Na primavera anterior, conhecera em Milão um hipnotizador bastante notório entre os amantes do espiritismo e instei a ser admitido em uma de suas sessões espíritas. Recebi pouco depois o convite para ir, e fui perturbado por pressentimentos tão tristes que, muitas vezes, ao longo do caminho, estive quase a ponto de desistir. A insistência do meu orgulho levou-me malgrado até lá. Não vou discorrer aqui sobre as invocações surpreendentes a que assisti: bastará dizer que fiquei tão maravilhado pelas respostas que escutamos de alguns espíritos, e minha mente ficou tão assombrada por aqueles prodígios que, superado todo temor, concebi o desejo de chamar algum conhecido meu e dirigir-lhe eu mesmo algumas perguntas já pensadas e discutidas em minha mente. Manifestada esta vontade, fui introduzido em um gabinete apartado, onde fui deixado a sós; uma vez que a impaciência e o desejo de invocar muitos espíritos ao mesmo tempo me deixavam hesitante sobre quem escolher, e era meu projeto interrogar o espírito invocado sobre o destino humano e a espiritualidade de nossa natureza, lembrei-me do doutor Federico M., com quem, em vida, tivera vivas discussões sobre este assunto, e decidi chamá-lo. Feita a escolha, sentei-me à mesinha, dispus diante de mim uma folha de papel, molhei a pena no tinteiro, coloquei-me em posição de escrever e, concentrando-me quanto era possível naquele pensamento, reuni toda minha potência de volição, enderecei-a para aquele fim e aguardei que o espírito do doutor baixasse.

Não esperei muito tempo. Após alguns minutos de delonga, percebi por sensações novas e inexplicáveis que eu não estava mais sozinho na sala, senti por assim dizer sua presença; e, antes que tivesse me decidido a formular uma pergunta, minha mão agitada e convulsa, movida por uma força estranha à minha vontade, escreveu, eu incônscio, estas palavras:

“Eis-me aqui. Tu me chamaste num momento em que invocações mais urgentes impediam-me de vir, e não poderei deter-me aqui agora nem responder às indagações que deliberaste fazer-me. Não obstante obedeci para satisfazer-te, e porque necessitava eu mesmo de ti; e há muito tempo busco o meio de pôr-me em contato com teu espírito. Durante minha vida mortal, dei-te alguns ossos que eu havia subtraído ao gabinete de anatomia de Pavia, entre os quais uma rótula de joelho que pertencera ao corpo de um ex-servente da Universidade que se chamava Pietro Mariani, de quem eu dissecara arbitrariamente o cadáver. Há onze anos ele tortura meu espírito para reaver aquele ossículo inútil, não pára de me recriminar amargamente por aquele ato, de ameaçar-me e de insistir na restituição de sua rótula. Suplico-te, pela memória talvez não ingrata que guardaste de mim, se tu a conservaste até agora, restitui-lha, libera-me deste débito tormentoso. Farei baixar em ti, neste momento, o espírito de Mariani. Responde”.

Aterrorizado com a revelação, respondi que conservara de fato aquela desventurada rótula, que ficaria feliz em restituí-la a seu legítimo dono e que, não havendo outro jeito, mandasse a mim o Mariani. Dito isto, ou melhor, pensado, senti minha pessoa mais leve, meu braço mais livre,  minha mão não mais contraída como pouco antes, e entendi, no mesmo instante, que o espírito do doutor me deixara.

Fiquei outro momento a esperar. Minha mente estava num estado de exaltação impossível de definir.

Ao cabo de alguns minutos, senti novamente os mesmos fenômenos de antes, embora menos intensos; minha mão, arrebatada pela vontade do espírito, escreveu estas outras palavras:
“O espírito de Pietro Mariani, ex-servente da Universidade de Pavia, está perante ti e reclama a rótula de seu joelho esquerdo, que reténs indevidamente há onze anos. Responde”.

Esta fala era mais concisa e mais enérgica que a do doutor. Repliquei ao espírito: “Estou dispostíssimo a restituir a rótula do joelho esquerdo de Pietro Mariani e imploro que me perdoe essa detenção ilegal; porém, como poderei efetuar a restituição que me é solicitada?”.

Então minha mão tornou a escrever:

“Pietro Mariani, ex-servente da Universidade de Pavia, virá ele mesmo reaver sua rótula”.
“Quando?”, perguntei aterrorizado.

E a mão cravou numa única palavra: “Esta noite”.

Aniquilado por aquela notícia, coberto de um suor cadavérico, apressei-me a exclamar, mudando subitamente o tom de voz:

“Por caridade... imploro... não te incomodes... eu mesmo enviarei.... haverá outros meios menos incômodos...”. Mas não terminara a frase e percebi, pelas mesmas sensações experimentadas antes, que o espírito de Mariani me deixara e que nada poderia impedir sua vinda.

É impossível expressar aqui, com palavras, a angústia das sensações que senti naquele instante. Eu estava dominado por um pânico assustador. Saí daquela casa quando os relógios da cidade badalavam a meia-noite: as ruas desertas, as luzes das janelas apagadas, as chamas dos lampiões ofuscadas por uma névoa densa e pesada: tudo me parecia mais tenebroso que o normal. Caminhei por um trecho sem saber aonde ir: um instinto mais poderoso que a vontade distanciava-me de minha morada. Onde buscar coragem para prosseguir? Eu receberia naquela noite a visita de um espectro -- era uma idéia mortificadora, uma perspectiva aterrorizante.

Quis então o acaso que, vagando por não sei qual rua, me encontrasse diante de uma taberna, na qual vi escrito, em caracteres gravados na cortina de pano e iluminados por uma chama interna: “Vinhos nacionais”; e disse a mim mesmo, resoluto: “Entremos, é melhor assim, e não é um mau remédio procurar no vinho a ousadia que já não posso pedir à razão”. E, metendo-me num canto de um antro subterrâneo, pedi algumas garrafas de vinho que sorvi com avidez, mesmo sentindo aversão pelo hábito da bebida. Obtive o efeito desejado. A cada copo meu temor se evanescia sensivelmente, meus pensamentos aclaravam-se, minhas idéias pareciam reordenar-se, conquanto numa nova desordem, e aos poucos reconquistei de tal modo a coragem que ri de meu terror, levantei-me e encaminhei-me resolutamente para casa.

Chegando ao quarto, um pouco cambaleante pelo excesso de vinho, acendi o lume, tirei as roupas pela metade, enfiei-me apressadamente na cama, fechei um olho, depois o outro e tentei adormecer. Em vão.

Sentia-me entorpecido, enrijecido, cataléptico, incapaz de me mexer; as cobertas pesavam sobre mim, envolviam-me e cobriam-me como se fossem de metal fundido; e durante aquela sonolência apercebi-me de fenômenos singulares que aconteciam à minha volta.

Do pavio da vela, que pensava ter apagado, aliás de estearina pura, elevavam-se espirais de fumaça tão densas e tão negras que,  concentrando-se sob o teto, o ocultavam e assumiam a aparência de um pesado manto de chumbo: a atmosfera do quarto, subitamente sufocante, ficara impregnada de um cheiro parecido ao que exala carne viva queimada, meus ouvidos ensurdeceram com um rumor incessante do qual não adivinhava as causas, e a rótula que via ali, entre meus papéis, parecia mover-se, rodopiar na superfície da mesa, tomada por convulsões estranhas e violentas.

Permaneci naquele estado não sei por quanto tempo: não conseguia desviar meus olhos da rótula.
Os meus sentidos, as minhas faculdades, as minhas idéias, tudo estava concentrado naquela visão, tudo me atraía para ela; queria levantar-me, descer da cama, sair, mas era impossível; minha aflição chegara a tal ponto que quase não senti nenhum espanto quando, repentinamente, dissipada a fumaça que subia do pavio da vela, vi erguer-se a cortina da porta e surgir o esperado fantasma.

Eu nem piscava. Ele avançou até o meio do quarto, inclinou-se cortesmente e disse: “Eu sou Pietro Mariani e venho retomar, como prometi, a minha rótula”.

Aterrorizado, hesitava em responder-lhe, e então ele continuou com delicadeza:
“Perdoe-me se o perturbo no meio da noite... a essas horas... entendo que é um horário incômodo... mas...”.

“Oh! Não é nada, não é nada”, interrompi, tranqüilizado por tanta cortesia, “aliás, devo agradecer-lhe a visita... será sempre uma honra recebê-lo em minha casa...”.

“Sou-lhe grato”, disse o espectro, “mas desejo de qualquer forma justificar-me pela insistência em reclamar a rótula, seja com o senhor, seja com o ilustre doutor que lha deu: observe”.

Assim falando, levantou a ponta do lençol em que estava enrolado e, mostrando-me a tíbia da perna esquerda atada ao fêmur, por falta da rótula, por uma fita negra passada duas ou três vezes pela abertura da fíbula, deu alguns passos pelo quarto fazendo-me ver como a ausência daquele osso o impedia de caminhar livremente.

“Não queiram os céus”, falei então, com pronúncia de pessoa mortificada, “que o digno ex-servente da Universidade de Pavia venha a ficar manco por minha causa: lá está sua rótula, ali, sobre a mesa, tome-a, ajeite-a como puder em seu joelho”.

O espectro inclinou-se pela segunda vez em atitude de agradecimento, desatou a fita que unia o fêmur à tíbia, colocou-a na mesa, pegou a rótula e começou a ajustá-la à perna. “Que notícias me traz do outro mundo”, perguntei, vendo que a conversa definhava durante aquela sua ocupação. Ele não respondeu à minha questão, mas exclamou, entristecido: “Esta rótula está um tanto danificada, o senhor não cuidou bem dela”.

“Não creio”, eu disse, “mas será que seus outros ossos estarão mais sólidos?”

Ele não disse nada e inclinou-se pela terceira vez para saudar-me; só respondeu quando estava na soleira, fechando a porta atrás de si. “Ouça se meus outros ossos não estão mais sólidos”.

Pronunciando estas palavras, bateu com os pés no assoalho com tanta violência que as paredes tremeram todas; aquele barulho me sacudiu e... acordei.

Apenas desperto, compreendi que era a zeladora batendo na porta, gritando: “Sou eu, levante-se, venha abrir”.

“Meus Deus”, exclamei então, esfregando os olhos com o dorso da mão. “Era então um sonho, nada mais que um sonho! Que susto! Louvado seja o céu... Mas que insensatez! Acreditar em espiritismo... em fantasmas...”. Enfiei apressadamente a calça e corri para abrir a porta; como o frio aconselhava a enfiar-me novamente sob as cobertas, aproximei-me da mesa para deixar a correspondência sob o peso de papel...

Mas qual não foi meu terror quando vi que a rótula desaparecera e em seu lugar ficara a fita negra, deixada por Pietro Mariani!

 

 

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